Sabe-se que praticamente todas as pessoas gostam de música. E que há uma grande diversidade de gêneros na arte musical, assim como há gente para gostar de tudo na música, assim como há pessoas que gostam das comidas mais impensadas em certos meios culturais. De uns tempos pra cá eu venho me perguntando: por que alguns gêneros musicais são mais respeitados que outros? Será que há algum critério objetivo e absoluto que nos permita estabelecer uma relação de ordem entre os gêneros, ou seja, dizer que um é melhor do que outro? E a resposta que eu cheguei, é: não. Vamos ver porque.
Como já foi dito, todas as pessoas gostam de música. Mas poucas tem algum conhecimento técnico na área, e dos que tem, muitos apenas sabem tocar o instrumento sem nunca ter frequentado uma academia de música, ou seja, elas podem ter um conhecimento técnico mínimo, mas não o conhecimento teórico. Se é assim, como elas fazem para julgar a música? É simples: a subjetividade.
Todo ser, apesar de racional, nasce com uma alma de subjetividade que é inexplicável e (pelo menos até hoje, eu creio) imprevisível no nascimento, mesmo que analisemos um a um todos os seus genes. Portanto, certas questões simplesmente escolhemos sem causa aparente: por que achamos uma comida ruim e outra gostosa, uma cor bonita e outra feia, uma música boa e outra péssima, são questões que não podemos estabelecer causa definitiva (apesar de haverem certos fatores que nos tendenciam a certos comportamentos, como a influência social; mas somos influenciados socialmente de todas as formas, tanto a vestir uma roupa como a vestir outra, porque escolhemos uma? O que quero dizer é que fatores como esses são "direcionantes" - implicam uma possibilidade de a pessoa tomar uma decisão - mas não determinísticos, pois a decisão nunca é 100% certa). Há um paradoxo interessante na filosofia: se um cão está defronte de duas comidas igualmente suculentas, qual delas ele irá escolher? Se não há nenhum motivo racional para que ele escolha uma ou outra, não há como prever o comportamento dele. Logo, a subjetividade, algo inerente e específico em todo ser humano, pode ser entendida como diferente da racionalidade, por esta nos direcionar a atitudes previsíveis pela lógica.
Bom, se usamos a subjetividade para julgar a música (ou a arte como um todo, para os leigos), então nosso julgamento é racional? Provavelmente não. Não se pode dizer que um gênero é ruim apenas porque você o acha desagradável; você pode dizer, com honestidade, no máximo que não gosta dele. E mesmo quando tentamos usar critérios aparentemente objetivos, falhamos: "essa música não tem letra", é algo comum de ouvir. Quem disse que a música precisa seguir uma cartilha de comportamento? A música não tem obrigação de ser reacionária, formadora de opinião, filosófica, ou qualquer coisa que seja. A música deve apenas ser música: ela se justifica por si só. Quem define o objetivo da sua música é o próprio músico, e assim como não se pode cobrar o descobrimento da origem da vida num TCC sobre lendas amazônicas, não se pode cobrar letras reflexivas do forró ou do brega, porque não é objetivo deles ter letra reflexiva, e isso não os desqualifica como bom ou ruim no quesito musical. Deve-se entender que a música tem propósito: se o objetivo de um funk é fazer as mulheres rebolarem, e elas rebolam, então o funk cumpre seu objetivo, e o MC é competente. O mesmo ocorre com outros gêneros. Alguns são apenas feitos pra dançar, e se eles conseguem fazer isso, então são boa música. É assim que eu penso.
Dizem que a Joelma canta mal, mas e daí? No brega o padrão é a mulher cantar mal mesmo, essa é uma característica própria do brega. Nem por isso podemos desqualificar o brega como cultura. Se pensássemos sempre desse modo academicista, ou parnasiano, de querer exigir rigor e complexidade estética da arte, desqualificaríamos muito da nossa cultura popular que foi feita por pessoas que nunca frequentaram uma universidade nem uma aula de canto ou leram um livro com toda a carga teórica que um instrumento carrega.
Entretanto, há um critério objetivo para julgarmos o músico: quando este não sabe lidar com os recursos de que utiliza. Por exemplo, quando ele não sabe tocar o instrumento que carrega, ou tenta cantar com uma voz afinada mas desafina, etc. Só assim podemos dizer que o músico é ruim, porque ele não cumpre com o seu objetivo, que seria tocar de uma forma harmoniosa. A não ser que ele queira tocar de forma desarmoniosa, aí ele entra no grupo dos gêneros supracitados, e não pode ser criticado.
Eu sempre valorizo a arte, seja ela qual forma seja, desde que estimule bons sentimentos, como a criatividade, a reflexão, a serenidade, a alegria. Embora eu me dê o direito de não gostar de muitas coisas (e todos têm esse direito), respeito tudo o que é bom para o homem e o respeita também. Então, fica o meu apelo para os pseudo-críticos de música, músicos e ouvintes: deixem de ser preconceituosos, e tentem enxergar as coisas não pelo modo que você queria que fossem, mas pelo modo como elas querem ser. Fim.

fala logo que você curte calypso e odeia os haters, Carlos
ResponderExcluirOdeio mesmo.
ResponderExcluir