segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O problema dos palpiteiros


Todo mundo concorda que hoje grande parte da população mundial têm acesso à informação, vinda ela de diversos meios: internet, televisão, rádio, jornais, revistas, livros, etc. E que, em muitos desses meios, como a internet, os livros e as revistas, escreve-se o que se bem entende por parte dos seus autores. É natural crer que essa proximidade da informação com o leitor casual possa elevar o conhecimento, a educação e o senso crítico e questionador do cidadão comum, produzindo, através da dialética, um alto padrão cultural em uma sociedade. Porém, muitas vezes, não é isso que acontece.

Todas as pessoas são diferentes, e cada uma tem suas áreas de interesse, dentro das quais elas irão buscar o conhecimento de maneira mais profunda e rigorosa, enquanto que fora dessa área, quanto mais distante estiver o interesse da pessoa pelo assunto, mais superficialmente ela irá buscar informações sobre ela, até um nível em que ela não busca mais informações, somente aceita passivamente aquilo que lhe disserem sobre o tema, ou, se for sensata, adotará uma postura cética diante de todo conhecimento que ela não domina, a não ser que venha amparado por provas (reais, e não anedóticas) de algum tipo. Isto é natural, pois não temos tempo pra estudar tudo sobre tudo, nem temos obrigação de fazê-lo; entretanto, nossos interesses sempre convergem para determinadas situações, e tendemos a acreditar naquilo que for conveniente pra nós, seja verdade ou não, tornando assim a postura passiva muito mais comum do que a postura cética. Este comportamente humano é muito favorável para quem tem o interesse de formar no coletivo não o comprometimento com a verdade, mas o comprometimento com ideologias falaciosas, cujo objetivo é difamar, ridicularizar e desacreditar alguém, alguma coisa ou uma linha de pensamento. E as pessoas que servem a esse propósito, as passivas, são o tipo de pessoa que menciono no título do post: os palpiteiros.

O palpiteiro é aquela pessoa que adora emitir palpites sobre assuntos que não tem o menor domínio de conhecimento, e quando tem, geralmente possui o interesse de manipular fatos para que eles possam parecer estar a seu favor. São eles que criam o senso comum e a "sabedoria" popular. O palpiteiro acredita naquilo que prefere acreditar, criando uma "zona de conforto" intelectual para si mesmo, e muitas vezes assume uma postura totalmente agressiva e irracional quando tentam lhe tirar desta zona, não importa quão fortes sejam os argumentos que se lhe apresentem. Existem vários níveis de comprometimento do palpiteiro com a sua "verdade": o mais fraco, é aquele que diz "ok, estou convencido" quando lhe são apresentados fatos que o contrariem, e o mais grave, e infelizmente comum, é o tipo fanático, que não importa o quanto a realidade seja contrária ao seu pensamento, ele nunca irá desistir de sua idéia, e irá agredir ferozmente todos os seus opositores, até mesmo de forma gratuita. Este tipo costuma defender idéias reacionárias e extremistas, em temas como religião, ateísmo, socialismo, darwinismo, nazismo, entre outros.

Como eu disse, é natural que não tenhamos profundo conhecimento em todas as áreas da cultura humana, pois temos nossos próprios interesses: estudar música, para muitos, é muito mais interessante do que estudar política ou religião. Claro que não estou desmerecendo nenhuma área de pesquisa. O que defendo é o adotar da postura cética quando lidamos com assuntos do qual não temos conhecimento. O maior critério para acreditarmos em algo é fazer uma avaliação racional daquilo que nos propõem. Porém a razão possui uma lógica, que não é apenas "achismo". Existem muitos meios e estratégias de tentar convencer alguém de algo sem usar a razão, mas parecendo que usa, e é preciso um pouco de experiência em debates para saber lidar com isso. O leigo em lógica argumentativa (que é praticamente lógica matemática) deveria evitar debater com palpiteiros, pois normalmente ele mesmo se tornará um palpiteiro, e buscar informações sobre o tema em trabalhos acadêmicos, de pessoas que entendam do assunto, com provas, inferências, testemunhos, relações de causa e efeito, dados estatísticos e conclusões. Algumas práticas comuns do palpiteiro é generalizar (a partir de um ou dois exemplos), usar evidências anedotas (como "ouvi falar que isso era assim e assado" sem citar a pessoa ou fonte) e apelo à autoridade ("Fulano disse isso, ele é doutor em não sei o quê, quem é você pra discordar dele?").

Pode-se pensar que essa prática de buscar informações é muito trabalhosa, e que se fôssemos pesquisar rigorosamente tudo que nos falam não teríamos tempo pra nada. É verdade. Mas lembremos que quem tem obrigação de buscar essas informações não somos nós, mas AQUELE QUE PRETENDE VENDER UMA IDÉIA. Portanto, se tentarem lhe convencer de algo sem provas ou evidências, simplesmente esqueça do assunto, você tem o direito de ser ignorante em algo. Estas provas que você deve exigir nem sempre são científicas, (pois a ciência não procura provar tudo) e as evidências nem sempre empíricas; algumas podem ser filosóficas. Deixe o trabalho da pesquisa para o ideólogo, pois o ônus da prova é sempre de quem faz uma alegação (seja ela qual for).

Se todos adotassem essa prática, com certeza nossa história, cultura e opiniões seriam muito diferentes das atuais. Existem inúmeras deturpações feitas pelos palpiteiros no nosso conhecimento geral, e eu deparo com muitas delas quando procuro buscar validade em clichês, chavões e conhecimentos pré-estabelecidos. Existem muitas injustiças que são cometidas por causa do comportamento passivo, e eu mudei o nome desse blog justamente por causa do meu comprometimento com a verdade, mesmo que ela favoreça ideologias contrárias às minhas. A partir de agora eu postarei mais artigos de análise racional sobre coisas da vida, e talvez menos de assuntos pessoais. Espero que eu consiga fazer deste blog alguma coisa relevante, quem sabe assim eu até passe a divulgá-lo...

Por fim, deixo dois textos que irão ajudá-lo a se prevenir contra palpiteiros e ideólogos militantes:

http://www.macielneto.adv.br/professor/logica/014.doc

http://cserbena.sites.uol.com.br/estratagemas_schopenhauer.htm


1 comentários:

  1. Cara, primeiro que eu tive duas tentativas frustradas antes dessa de tentar ler esse post gigante cheio de palavras dificeis e ideias complicadas. Depois que eu li, te achei inteligente pra caralho e percebi que eu não sou uma palpiteira, coisa que eu não sei se é boa ou não (eu não tento convencer ninguem das minhas ideias absurdas, mas tbm sou altamente influenciavel por palpiteiros de plantão, eu acho). Não dou um puto pela política, não leio a parte policial do jornal e sou uma completa ignorante acerca do tema.. e acerca de muitos outros, devo confessar.
    Vou me esforçar mesmo pra ler seu blog assiduamente e me tornar menos burra, mas ó, vou te falar.. vou sentir falta dos seus posts emocionais *-*

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