O senhor, de uns 60 anos, estava em seu trabalho de rotina, esperando que a enorme fila de crianças viesse a sentar em seu colo, contar sobre o que queriam ganhar de presente, sorrir para umas fotos, e fosse embora, levada por suas respectivas mães. Não que ele se entediasse com esse trabalho; na verdade, para ele, esse era um trabalho muito especial, que ele exercia com muita satisfação e que faria até de graça, pois, fazer a alegria das crianças e manter o espírito natalino revigorando a crença no bom velhinho era para ele um dever, pois haviam muito poucas pessoas com aspecto tão semelhante ao da figura do Papai Noel como aquele senhor.
Quando a fila estava terminando, o senhor percebeu algo de diferente na última criança. Ela parecia relutante em permanecer na fila, e a pessoa que parecia ser a mãe demonstrava impaciência em insistir que o garoto que devia ter uns 8 anos permanecesse ali. O garoto cruzava os braços, amarrava a cara, batia o pé... qual deveria ser o problema dele?
Chegada a vez do garoto implicante. De braços cruzados, ele se recusava a sentar no colo do Papai Noel e sorrir para os flashes das moças-duende. O senhor o chamou para perto de si, e tentou iniciar uma conversa com ele, para saber o porquê de tanta relutância em se aproximar do Papai Noel.
- O que houve, garotinho? Por que você não quer se aproximar de mim?
- Porque eu sei que o senhor é uma mentira!
- Como assim, uma mentira? Eu não estou aqui? Como posso ser de mentira?
- Não adianta, o senhor não é de verdade! Ano passado eu esperei o senhor a noite toda e só vi meu pai colocando os presentes na árvore... eu contei pros meus amigos e eles riram de mim por eu ter esperado o senhor! Disseram que é uma mentira que os nossos pais contam pra gente, e agora mamãe quer me fazer de bobo querendo que eu tire foto com "Papai Noel" - fala a criança com desdenho.
- Meu pequenino... deixe-me lhe dizer uma coisa. - e aproximou-se do ouvido do garoto como quem quer fazer um cochicho - é verdade que eu não tenho renas voadoras, tampouco distribuo presentes em todas as casas. Mas isso não significa que eu não seja real. Eu estou aqui, vestindo minha roupa de Papai Noel, dando alegria às crianças, ricas e pobres, que sonham em ganhar um presente, que às vezes é um brinquedo, às vezes é a felicidade da família, às vezes é saúde, às vezes é uma reconciliação com alguém que brigamos... e sem mim e todos os outros "Papais Noéis" que estão por aí, elas não teriam essa esperança, e o espírito da fraternidade do Natal talvez não fosse o mesmo. Estamos trabalhando duro pra mostrar a vocês que nada é impossível quando se deseja muito, e que, mesmo que o presente não venha das nossas mãos, poderá vir do seu pai, da sua mãe, do seu irmão, do seu amigo, ou até mesmo do papai do céu. Então, por favor, não conte às outras crianças que nós não existimos, porque nós estamos aqui sim, e sem o nosso trabalho, muitas crianças poderiam parar de sonhar e se desencantar com o espírito do Natal. Esse vai ser nosso segredinho, tá bom?
O garoto, pensativo, se retira com a mãe frustrada por não ter conseguido uma boa foto do filho.
Muitos anos após, o senhor, já muito idoso e com seus bisnetos, revisita o shopping na época de Natal, na esperança de fazer com que os pequeninos, numa época em que as informações chegam aos ouvidos das crianças de forma muito precoce, se encantassem com a velha magia do período natalino. A primeira coisa que faria seria levá-las ao Papai Noel.
Porém, ao chegar na casa do bom velhinho, situada na praça central, teve um certo desapontamento.
A pessoa que interpretava o Papai Noel não era em nada parecido com o mesmo. Era magro (estava óbvio que usava travesseiros por debaixo do casaco), jovem (mal deveria ter 30 anos), tinha uma barba artificial muito mal-feita... o velho aposentado pensou "Mas que coisa! Agora nem ligam mais para quem vai representar o Papai Noel, escolhem qualquer um! É puro marketing!", e já ia se retirando do local, quando ouviu um chamado que parecia se dirigir a ele.
- Ei, senhor! Com licença!
O velho se virou e viu que era o novato Papai Noel quem o chamava.
- O senhor pode vir aqui um instante?
Com certa curiosidade, se indagando se conhecia aquele rapaz, o idoso foi falar com o jovem.
- Desculpe, mas... eu lhe conheço?
- É claro que conhece! O senhor talvez não se lembre de mim, mas eu com certeza me lembro do senhor!
De fato, o idoso não conseguia se lembrar de onde conhecia aquele moço que parecia lhe demonstrar tanta intimidade.
- Quando conheci o senhor, eu era apenas um garoto emburrado, que não mais acreditava no Papai Noel... depois que tivemos aquela conversa, percebi que eu estava errado, e que o Papai Noel realmente existia... pois quando acordei logo no dia do Natal, encontrei todos os presentes que eu desejava na minha árvore, e desde então todo Natal eu passei a rezar para o papai do céu para que ele trouxesse paz, solidariedade, união e amor como presente, e toda vez que haviam brigas, rancores, avarezas e discórdias, todas se dissipavam na comunhão do amor natalino. Passamos a nos entender mais, a sermos mais tolerantes e caridosos com o próximo, e nossa família ficou cada vez mais unida. Depois, não só a família, como a vizinhança também ficou mais próxima, tanto que passamos a fazer coletas de roupas e alimentos para doar aos pobres. E à medida que fui crescendo, fui percebendo cada vez mais a magia do Natal e de se manter as antigas tradições. Por isso, estou aqui ensinando essas crianças a sonharem com um mundo melhor, e tudo isso graças ao senhor! Muito obrigado!
O jovem deu um forte abraço no idoso, embora rápido, pois tinha que atender as criancinhas. E o velho, emocionado pela enorme conquista que suas palavras fizeram no coração de uma criança, se dirigiu ao final da fila, para que seus netos pudessem também sentar no colo daquele jovem, porém tão inspirado Papai Noel, para plantar neles a pequena semente da esperança e da fraternidade, que a todo Natal dão os seus frutos, e que nos servem de comer durante o ano inteiro, e nos alimentam do amor que nos foi ensinado a ter pelos irmãos há muito, muito tempo atrás.
Quando a fila estava terminando, o senhor percebeu algo de diferente na última criança. Ela parecia relutante em permanecer na fila, e a pessoa que parecia ser a mãe demonstrava impaciência em insistir que o garoto que devia ter uns 8 anos permanecesse ali. O garoto cruzava os braços, amarrava a cara, batia o pé... qual deveria ser o problema dele?
Chegada a vez do garoto implicante. De braços cruzados, ele se recusava a sentar no colo do Papai Noel e sorrir para os flashes das moças-duende. O senhor o chamou para perto de si, e tentou iniciar uma conversa com ele, para saber o porquê de tanta relutância em se aproximar do Papai Noel.
- O que houve, garotinho? Por que você não quer se aproximar de mim?
- Porque eu sei que o senhor é uma mentira!
- Como assim, uma mentira? Eu não estou aqui? Como posso ser de mentira?
- Não adianta, o senhor não é de verdade! Ano passado eu esperei o senhor a noite toda e só vi meu pai colocando os presentes na árvore... eu contei pros meus amigos e eles riram de mim por eu ter esperado o senhor! Disseram que é uma mentira que os nossos pais contam pra gente, e agora mamãe quer me fazer de bobo querendo que eu tire foto com "Papai Noel" - fala a criança com desdenho.
- Meu pequenino... deixe-me lhe dizer uma coisa. - e aproximou-se do ouvido do garoto como quem quer fazer um cochicho - é verdade que eu não tenho renas voadoras, tampouco distribuo presentes em todas as casas. Mas isso não significa que eu não seja real. Eu estou aqui, vestindo minha roupa de Papai Noel, dando alegria às crianças, ricas e pobres, que sonham em ganhar um presente, que às vezes é um brinquedo, às vezes é a felicidade da família, às vezes é saúde, às vezes é uma reconciliação com alguém que brigamos... e sem mim e todos os outros "Papais Noéis" que estão por aí, elas não teriam essa esperança, e o espírito da fraternidade do Natal talvez não fosse o mesmo. Estamos trabalhando duro pra mostrar a vocês que nada é impossível quando se deseja muito, e que, mesmo que o presente não venha das nossas mãos, poderá vir do seu pai, da sua mãe, do seu irmão, do seu amigo, ou até mesmo do papai do céu. Então, por favor, não conte às outras crianças que nós não existimos, porque nós estamos aqui sim, e sem o nosso trabalho, muitas crianças poderiam parar de sonhar e se desencantar com o espírito do Natal. Esse vai ser nosso segredinho, tá bom?
O garoto, pensativo, se retira com a mãe frustrada por não ter conseguido uma boa foto do filho.
Muitos anos após, o senhor, já muito idoso e com seus bisnetos, revisita o shopping na época de Natal, na esperança de fazer com que os pequeninos, numa época em que as informações chegam aos ouvidos das crianças de forma muito precoce, se encantassem com a velha magia do período natalino. A primeira coisa que faria seria levá-las ao Papai Noel.
Porém, ao chegar na casa do bom velhinho, situada na praça central, teve um certo desapontamento.
A pessoa que interpretava o Papai Noel não era em nada parecido com o mesmo. Era magro (estava óbvio que usava travesseiros por debaixo do casaco), jovem (mal deveria ter 30 anos), tinha uma barba artificial muito mal-feita... o velho aposentado pensou "Mas que coisa! Agora nem ligam mais para quem vai representar o Papai Noel, escolhem qualquer um! É puro marketing!", e já ia se retirando do local, quando ouviu um chamado que parecia se dirigir a ele.
- Ei, senhor! Com licença!
O velho se virou e viu que era o novato Papai Noel quem o chamava.
- O senhor pode vir aqui um instante?
Com certa curiosidade, se indagando se conhecia aquele rapaz, o idoso foi falar com o jovem.
- Desculpe, mas... eu lhe conheço?
- É claro que conhece! O senhor talvez não se lembre de mim, mas eu com certeza me lembro do senhor!
De fato, o idoso não conseguia se lembrar de onde conhecia aquele moço que parecia lhe demonstrar tanta intimidade.
- Quando conheci o senhor, eu era apenas um garoto emburrado, que não mais acreditava no Papai Noel... depois que tivemos aquela conversa, percebi que eu estava errado, e que o Papai Noel realmente existia... pois quando acordei logo no dia do Natal, encontrei todos os presentes que eu desejava na minha árvore, e desde então todo Natal eu passei a rezar para o papai do céu para que ele trouxesse paz, solidariedade, união e amor como presente, e toda vez que haviam brigas, rancores, avarezas e discórdias, todas se dissipavam na comunhão do amor natalino. Passamos a nos entender mais, a sermos mais tolerantes e caridosos com o próximo, e nossa família ficou cada vez mais unida. Depois, não só a família, como a vizinhança também ficou mais próxima, tanto que passamos a fazer coletas de roupas e alimentos para doar aos pobres. E à medida que fui crescendo, fui percebendo cada vez mais a magia do Natal e de se manter as antigas tradições. Por isso, estou aqui ensinando essas crianças a sonharem com um mundo melhor, e tudo isso graças ao senhor! Muito obrigado!
O jovem deu um forte abraço no idoso, embora rápido, pois tinha que atender as criancinhas. E o velho, emocionado pela enorme conquista que suas palavras fizeram no coração de uma criança, se dirigiu ao final da fila, para que seus netos pudessem também sentar no colo daquele jovem, porém tão inspirado Papai Noel, para plantar neles a pequena semente da esperança e da fraternidade, que a todo Natal dão os seus frutos, e que nos servem de comer durante o ano inteiro, e nos alimentam do amor que nos foi ensinado a ter pelos irmãos há muito, muito tempo atrás.
Adorei o teu texto, Conto de Natal, Carlos. Muito bom mesmo!
ResponderExcluir=*
olha a "discórdia" aí no texto :DDD
ResponderExcluirMuito bacana, amor... Adorei o texto, adoro o natal, adoro vc e adoro torta alemã!!!! ;) ho ho ho!
Eu já desisti de tentar ter espírito natalino. Perceba que tudo de ruim acontece comigo em dezembro... é quase me pedir um milagre q eu tenha algum espírito nesse mês ._. Mas eu amei o conto *-*
ResponderExcluirque lindo, carlitos..
ResponderExcluirvc tem futuro \o
O conto ficou legal, com a passagem do tempo e tudo mais. A mensagem do conto é bonita também...
ResponderExcluirEntretanto...
Não tem ninguém morto. =(((
Vamos caprichar no próximo conto natalino com mortes coletivas horrendas para frisar o verdadeiro espírito natalino entre nós, irmãos.